DINDINHA 
 ELISA LUCINDA é poeta, jornalista, escritora, atriz e madrinha da Estimativa
Por causa dela me criei transparente,
corri risco,briguei com grandes e defendi inocentes.
Agitei bastante, por ela,
as porções de ingredientes do conhecimento antes de usar.
Por ela, e em sua confiança me lancei na estrada nebulosa
e definida do sonho;
estrada que só a esperança constrói
com  inquebráveis invisíveis estruturas.
E fui de costas, de quatro, de peito ,de frente para o tal sonho.  
Desde pequena gostava de admirar o crepúsculo
- mesmo antes de haver em meu repertório
a palavra crepúsculo –
gostava  de reparar na boniteza das pessoas
e descobrir muita variedade de beleza nelas,
nas  vitrines, nas casas, nas flores, nas roupas, nas tardes,
e usava dela para exclamar, em alto e bom som,

meu contentamento  com o mundo,
meu descontentamento com o mesmo mundo ,
meu espanto com suas novidades diárias
e seus bordéis de cores em tudo.
Por  irmandade com ela, topei viagens,
fiz trocadilhos na alta filosofia do humor,
e ainda preservei a doce inquietude com suspenses
de boas vésperas no peitinho sonhador.
Por causa dela fui suspensa do colégio,
apanhei uma vez de meu pai,
namorei escondido,
levei profundos beliscões de minha avó,
brinquei de carrinho de rolimã, de boneca,
soltei pipa e desobedeci.
Por acreditar nela, me casei amando,
tive filho querendo , me separei, mudei de estado,
de profissão, viajei,
me vesti como se fosse carnaval para uso diário, me expus,
falei coisa simples que todo mundo vive mas finge que não.
Pulei muros, regras, fiz bainhas cada vez mais pra cima nas minhas saias.
Por causa dela lapidei dores,
engoli uns sapos, cuspi rãs, recusei sorrindo de bom grado,
propinas, mordomias e cargos, piscinas e conchavos.
Por ela fiz amigos livres e originais,

iguais a todo mundo e
ao mesmo tempo não parecidos com ninguém.
Agarrada firme à sua mão,
criei neologismos, inventei atitude, expressão e moda.
Por ir fundo nela,
pintei o sete, fiquei de castigo por fazer arte
e saí do castigo pela mesma arte.
Em seu nome, tratei crianças como senhores, escritores,
repentistas, sábios e mentores, criei filho com alegria,
respeito, com sim e não mas sem opressão.
Cantei alto nas ruas urbanas sobre as bicicletas,
assobiei alto dentro dos coletivos, testando a afinação do bico.
Por causa dela me espelhei nos passarinhos, me repararam muito
e fui chamada de maluca moleca
irresponsável irrotulável puta pagã e poeta.
Por causa dela passei noites procurando o amor,
errando e acertando versos de amor,
e por causa dela  o amor me encontrou.
Com ela desfrutei de bonanças,
compreendi e aceitei temporais.
Com ela dei musica à minha voz,
fôlego aos meus princípios,
inícios aos meus finais. 
Mas foi exatamente ela quem me ensinou a seguir
enrolada como meus cabelos,
resoluta como o  vento,
límpida como a estrada que eu via e vejo,
clara como as palavras que digo e escrevo,
frágil e forte como meus desejos.
Pois, de joelhos estou por ela,
voando estou com ela,
grata  que sou a ela. 
Porque quando tudo parece me faltar,
a liberdade me dá colo.