Nei Lopes
Um dia, Cassul-Buanga, alguns chegaram:
A pólvora no peito, uma bússola nos olhos
E as caras inóspitas vestidas de papel.
Vieram numa nau de velas caras,
Bordadas de cifrões.
Suas mãos eram de ferro
E falavam um dialeto
De medo e ignorância.
E fomos.
Amontoados, confundidos, fundidos, estupefatos
Nossas dignidades eram dadas mar atrás
Aos peixes.
Chegamos:
Nosso suor foi o doce sumo de suas canas
– nós bagaços.
Nosso sangue eram as gotas de seu café
– nós borras pretas.
Nossas carapinhas eram nuvens de algodão,
Brancas,
Como nossas negras dignidades
Dadas aos peixes.
Nossas mãos eram sua mão-de-obra.
Mas vivemos, Cassul. E cantamos um blues!
E na roda um samba
De roda
Dançamos.
Nossos corpos tensos
Nossos corpos densos
Venceram quase todas as competições.
Nossos poemas formaram um grande rio.
E amamos e nos demos.
E nos demos e amamos.
E de nós fez-se um mundo.
Hoje, Cassul, nossas mulheres
– os negros ventres de veludo –
Manufaturam, de paina, de faina
Os travesseiros
Onde nossos filhos,
Meninos como você, Cassul-Buanga,
Hão de sonhar um sonho tão bonito...
Porque Zâmbi mandou. E está escrito.
[1]Nei Lopes, Incursões Sobre a Pele, Rio de Janeiro: Artium, 1996
Colunista: Nina Silva
"Não temos a grafia como testemunha,
nossos corpos são ceras vivas
e nossas almas revivem tudo que foi nosso, que é nosso.
O tempo pode até passar,
mas o saber perpassa a morte e está presente.
É o viver de boca,
é o viver de ouvido,
é o viver de sentidos.
É preciso carne forte para levar a negritude na pele,
é preciso muito mais que papel e tinta para desenhar nossa trajetória,
é preciso alma nos olhos para ler a nossa história."
Nina Silva - 2010
Última atualização em Dom, 26 de Junho de 2011 18:26
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