EU ESTOU COM UMA ESPERANÇA ENORME DENTRO DE MIM

jana

Era uma manhã de quinta-feira quando fui ao escritório da Estimativa, no Edifício Avenida Central, no Centro do Rio de Janeiro, encontrar Jana Guinond, para esta entrevista. Como ela mesma definiu estava no meio de um furação: câmeras, cabos, computadores para todos os lados, telefones tocando. De repente ela trocou de cadeira, o ambiente se aquietou e nós começamos essa conversa de meia hora, muito reflexiva, o que ela atribuiu ao seu aniversário de 40 anos dali a alguns dias. Ao longo do encontro Jana abriu o seu coração e o da Estimativa, é claro?


Como você define a Estimativa hoje?

A Estimativa hoje é e foi desde o início a luta pela visibilidade da mulher negra. Essa mulher que existe, que contribui, que colabora para a construção de uma sociedade melhor, mas que não é vista, não é reconhecida. Então, isso vem do trabalho de muitas ativistas anteriores a nós e que hoje se mantém atual. A situação melhorou, porque dizer que não mudou nada seria uma visão pessimista. Mas, temos consciência de que ainda temos muito trabalho a fazer.

 

Quem são essas mulheres? Como elas chegam até a Estimativa?

São todas mulheres poderosas, porém invisíveis para a sociedade, para o sistema. Essas guerreiras já existem, elas estão ai se a gente pegar a história da mulher negra é um somatório de lutas, de resistência cada uma da sua maneira, da sua forma. E a Estimativa se propõe a ser apenas um instrumento para lançar luz na força dessas mulheres, que em geral, são ignoradas.

Quando a gente fala de mulher negra a gente fala de amor, a gente fala de afago, de sentimento não tem como ser de outra forma.


Você se preocupa com a continuidade dos projetos da Estimativa?

A Estimativa é a continuidade de uma história, a gente continua a história de várias outras pessoas que deram seu sangue e suor, então para seguir em frente precisamos lembrar a todo tempo que somos continuidade. Eu não posso dizer para onde eu vou sem dizer de onde eu vim. Os nossos projetos vêm exigir efetivamente políticas públicas e envolvem uma pitadinha de amor que é fundamental para qualquer ser humano.

 

Existe uma preocupação com as crianças nos projetos da Estimativa, por quê?

A instituição preza, antes de qualquer outro valor, a família, independente do formato. A valorização da sabedoria dos mais velhos faz parte da tradição africana. Se a gente fala de um resgate histórico a presença do mais velho é fundamental e ter a criança por perto é de suma importância. Quando eu me tornei mãe eu comecei a olhar o mundo de outra maneira e isso se refletiu na gestão da Estimativa.

 

É natural que as pessoas atribuam a Estimativa a sua imagem. Quem é Jana Guinond, para além da Estimativa?

A Estimativa é o que é e a Jana só é o que é por causa de um monte de mulheres que fazem parte dessa história, e ai a gente tem Nina Silva, Neide Diniz, Vanda Ferreira, Giselle Moraes, Refém, Juliana Baraúna, nossas tranceiras e várias outras pessoas que direta e indiretamente participam do projeto. Eu confesso que não consigo pensar em uma coisa muito solitária. Ao longo da minha trajetória profissional eu percebi que conforme a gente vai avançando, descobre que está sozinha nessa profissão. Quando a gente olha para um lado, olha para o outro e descobre “eu sou a única negra”, por um lado que legal consegui, parabéns. Mas, por outro lado, não quero ficar só, para alcançar esse objetivo o meu projeto tem de ser coletivo. A Estimativa é a reunião de muitas mulheres poderosas, dos mais diferentes setores, que se juntam param contribuir para um mundo melhor, e eu preciso dessas mulheres perto de mim, tanto quanto eu preciso da minha família.

 

E o Programa Reconhecer? Que já está maior buxixo na Internet, o que é esse novo projeto da Estimativa?

Durante um tempo eu tenho trabalhado na área artística e, em vários momentos, aconteceram situações que me incomodaram, por exemplo, muitos profissionais não sabem lidar com nossos cabelos. E, muitas vezes, esses profissionais ao invés de admitirem que precisavam se reciclar, direcionavam essa culpa para o meu cabelo “Ah! Como é que penteia isso?”. O fato de um profissional não saber pentear o meu cabelo não é problema meu, significa que ele não está antenado. Os negros estão entrando para o mercado, os profissionais têm de aprender a lidar com o cabelo crespo, com a pele negra, nossos tons são diferentes. Isso sempre me inquietou e o Reconhecer (talk show mensal na internet produzido pela Estimativa) é simplesmente pra dizer “Olha só nós podemos.”, nós podemos ficar na frente das câmeras sim, nós podemos produzir, dirigir. Nós podemos tudo. A gente sabe que alguns grupos já tentaram fazer isso, que é desafiador. O reconhecer é um ato de coragem, um ato de amor.

 

E o que você espera para os próximos 6 anos da estimativa?

Embora o mundo ainda não esteja do jeito que eu quero, eu acho que temos mais a comemorar do que a lamentar. Eu estou com uma esperança enorme dentro de mim de que as coisas vão e precisam melhorar.


 


Última atualização em Ter, 19 de Julho de 2011 23:39

 

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